Um empresário do interior de São Paulo, proprietário de uma rede de sorveterias, afirmou publicamente que deixará de distribuir cestas básicas e outros donativos por estar «cansado» de ajudar pessoas que, segundo ele, preferem «viver dos auxílios do governo». A declaração foi feita em publicação nas redes sociais na tarde desta segunda-feira (26), um dia após o segundo turno das eleições presidenciais.
Adriano Reis, dono da franquia Ice Cream Mix, no entanto, recebeu quatro parcelas de R$ 600 do auxílio emergencial entre julho e outubro de 2020, totalizando R$ 2.400, conforme registros do Portal da Transparência do governo federal. O benefício foi criado para amparar trabalhadores informais e de baixa renda durante a pandemia de Covid-19.
As regras do programa exigiam que o beneficiário tivesse renda per capita de até meio salário mínimo (R$ 522,50 na época) e não possuísse emprego formal ativo. Segundo dados da Receita Federal, em 2020 o empresário não tinha nenhuma empresa cadastrada em seu nome, embora o perfil da rede de sorveterias nas redes sociais indique que o negócio foi criado em 2014.
A empresa de Adriano Reis opera no sistema de franquias, e cada unidade deve faturar entre R$ 30 mil e R$ 45 mil por mês, de acordo com informações do próprio perfil da marca. O empresário também publicou nas redes sociais a aquisição de um segundo carro da marca BMW e viagens à Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, ao lado da família.
Procurado pela reportagem, Adriano Reis não respondeu até a publicação desta matéria. O espaço permanece aberto para manifestação. Em vídeo divulgado anteriormente, ele negou que a decisão de suspender as doações tenha motivação política, mas ofendeu eleitores que votaram pela reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A publicação original informava que a sorveteria havia contribuído com ações sociais, como doação de cestas básicas, agasalhos e brinquedos, mas decidiu encerrar os projetos. No texto, a empresa pede desculpas às ONGs e aos demais parceiros pela decisão e afirma ter certeza da compreensão do público. A postagem recebeu diversas críticas nos comentários.
A contradição entre o discurso e o recebimento do benefício gerou repercussão nas redes sociais, com usuários questionando a coerência do empresário. O caso também levanta debate sobre a fiscalização dos critérios de elegibilidade do auxílio emergencial, que teve mais de 68 milhões de beneficiários no país.
O auxílio emergencial foi pago em parcelas de R$ 600 (ou R$ 1.200 para mães chefes de família) entre abril e dezembro de 2020, com o objetivo de mitigar os efeitos econômicos da pandemia. O programa foi posteriormente prorrogado com valores reduzidos em 2021.
A reportagem tentou contato com a assessoria da rede de sorveterias e com o empresário para comentar as informações divulgadas, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.
Fonte de referência: metropoles.com — https://metropoles.com/sao-paulo/empresario-que-cortou-doacoes-por-politica-recebeu-auxilio-emergencial

