Passageiros com deficiência e seus familiares estão enfrentando longas jornadas para desbloquear o cartão Top Especial, que garante gratuidade no transporte intermunicipal de São Paulo. O único posto de atendimento presencial para a liberação fica em Itapecerica da Serra, na região oeste da Grande São Paulo, distante de estações de trem e metrô.
Desde maio, a operadora Autopass implantou um sistema de reconhecimento facial para validar o uso do benefício. Segundo a empresa, 22.900 cartões foram bloqueados após análise de transações por biometria. Passageiros relatam que bloqueios ocorrem por erros de identificação, como quando um acompanhante se aproxima da câmera antes do titular, ou até sem motivo aparente.
O deslocamento para desbloquear o cartão pode ultrapassar 80 km em alguns casos. Moradores de Mogi das Cruzes, no extremo leste da região metropolitana, precisam percorrer mais de 100 km. Muitos perdem o dia de trabalho e gastam até R$ 400 com transporte por aplicativo.
Na última quinta-feira (20/8), o Metrópoles conversou com passageiros que aguardavam na fila do posto da Avenida Dona Anila, em Itapecerica. O pintor Horácio Alves Martins, de 51 anos, saiu do bairro Bonsucesso, em Guarulhos, para desbloquear o cartão do filho autista, Bernardo, de 6 anos. A família deixou casa às 7h e chegou ao local às 11h.
«Ninguém sabe o motivo pelo qual bloqueou. E é uma necessidade para ir ao médico três vezes por semana. Depende do cartão», disse Horácio, que perdeu o dia de trabalho. A esposa dele, a dona de casa Edines Oliveira, de 44 anos, reforçou a dificuldade: «É um absurdo vir aqui para fazer o desbloqueio de um cartão. A gente mora lá em Guarulhos, pagamos R$ 400 de Uber. Não é fácil».
A ajudante geral Dirce Rocha, de 54 anos, saiu de casa em Guarulhos às 5h40 e levou mais de cinco horas para chegar a Itapecerica usando transporte público, sem o benefício da gratuidade porque o cartão estava bloqueado. Com uma bengala, pegou ônibus intermunicipais e duas linhas de metrô. «Fiquei indignada. Tantos lugares de São Paulo que são mais próximos. Falaram que aqui era interior de São Paulo, para ver c...»
A Autopass informou que trabalha para implementar um atendimento online e ampliar os pontos de atendimento presenciais. A empresa não detalhou prazos para essas medidas. Procurada, a Secretaria dos Transportes Metropolitanos não se manifestou até a publicação desta reportagem.
A situação tem gerado transtornos para pessoas que dependem do benefício para tratamentos de saúde e outras necessidades essenciais. O deslocamento forçado até um único posto representa um obstáculo adicional para quem já enfrenta dificuldades de mobilidade. A promessa de atendimento online pode reduzir a burocracia, mas ainda não há data para sua implementação.

Fonte de referência: metropoles.com — https://metropoles.com/sao-paulo/passageiros-pcd-tem-que-atravessar-sp-para-desbloquear-bilhete-top

